Em cartaz, a indisciplina
(Beatriz Vichessi)
Qualquer educador tem histórias para
contar sobre o comportamento dos alunos em classe. Algumas parecem filmes de
terror, e outras, comédias do tipo pastelão. Para seguir em frente, haja
paciência e pulso firme - as duas soluções para o problema, de acordo com o
senso comum. Na verdade, essas capacidades permitem apenas lidar
superficialmente com a indisciplina. Resolvê-la requer estudo. O assunto é tão
sério que pesquisadores têm se dedicado a observar professores e estudantes e
conversar com eles. "A escola tem de refletir sobre suas posturas e
reinventá-las", diz Joe Garcia, coordenador do grupo de pesquisa
Indisciplina na Educação Contemporânea, da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP).
Confira três pesquisas com dados interessantes para quem está disposto a dar um
basta às situações fora de controle e mudar o fim da história.
A
garotada quer ser ouvida pelos educadores
Durante
sete meses, em um estudo realizado com turmas de 9º ano de uma escola em
Cândido de Abreu, a 305 quilômetros de Curitiba, Mônica Macedo, mestre em
Educação pela UTP, ouviu o lado da história que sempre é julgado como culpado
pela indisciplina: os estudantes. Na tese A Indisciplina Escolar na
Perspectiva dos Alunos, ela revela que os jovens têm consciência das
atitudes que praticam. Ao mesmo tempo, apontam questões de responsabilidade da
escola que desencadeiam os comportamentos ditos inadequados. Eles consideram
que os professores não têm coerência ao lidar com os problemas do dia a dia da
sala de aula. Um dos alunos disse que às vezes fica pensando por que alguns
professores deixam usar boné na sala e outros não. Um colega comentou: "Na
sala de aula, quem tem autoridade é o professor. Lá fora é a diretora (...). Se
a indisciplina é dentro da sala, o professor tem de dar conta de resolver
porque ele tá envolvido. Às vezes, foi ele que provocou. Ou então ele tem de
resolver porque é professor". A falta de regras claras e a exclusão da
garotada nas discussões que as definem também são apontadas pelos alunos como
problemas que fazem o clima esquentar. "Os jovens querem ter voz,
participar da elaboração do projeto político-pedagógico (PPP). Quando
não consultados, afrontam os educadores e a instituição", diz Mônica.
Antes
de tomar uma atitude, vale analisar o problema
Julio Groppa Aquino, professor da Universidade de São Paulo (USP), investigou
registros de ocorrências disciplinares de turmas do Ensino Médio de uma escola
pública paulista. O material foi reunido durante cinco anos. Ao analisá-lo, ele
concluiu que na hora de tomar uma atitude é imprescindível que os educadores
levem em conta que os diversos atos indisciplinados que ocorrem nas escolas têm
naturezas diferentes. Considerando essa ideia, no artigo Da (Contra)
Normatividade do Cotidiano Escolar: Problematizando o Discurso sobre a
Indisciplina Discente, Aquino propõe três classificações distintas para
diversos comportamentos e atos indisciplinados. São elas: atitudes impróprias,
infrações regimentares e atos violentos. O primeiro grupo faz referência ao
campo geral da incivilidade e diz respeito à não-realização das atividades,
recusa a pedidos ou ordens dadas pelo professor, ameaça de nudez, atividades
alheias às aulas, brincadeiras constrangedoras, despropositadas ou agressivas,
cantorias em aula, conversas paralelas, descumprimento de acordos,
questionamentos irônicos e uso de palavrões, entre outros. As infrações
regimentais incluem deboches às normas escolares, como adulteração e destruição
de documentos, atrasos, ausência de material, interrupção externa de aula sem
autorização, não realização dos deveres, saída da aula sem autorização e uso de
aparelhos sonoros ou de telefone celular em sala, além de cabular aulas. Por
fim, os atos violentos - físicos ou verbais - podem se referir ao patrimônio
escolar, ter a ver com conflitos entre os estudantes ou, então, envolver a
moçada e os educadores. A divisão em categorias distintas é interessante
porque, não raro, tudo é colocado no mesmo balaio como se fossem problemas
iguais ou se tratasse de uma sucessão progressiva: da indisciplina à
incivilidade e desta à violência. "Não faz sentido pensar assim. Esses
problemas não têm necessariamente a mesma raiz nem são ligados por uma relação
direta de casualidade", explica Aquino.
A bagunça dos
pequenos nem sempre é indisciplina
Mesmo ainda sendo tão pequenas, crianças da Educação Infantil às vezes são
consideradas indisciplinadas pelos educadores. Para conhecer os motivos desse
julgamento, Mariana Franzoloso, mestre em Educação pela UTP, observou três
turmas de pré-escola da rede municipal de Curitiba durante seis meses. Na tese Indisciplina
e Desenvolvimento Moral na Educação Infantil, ela mostra que muitas das
atitudes consideradas pelos docentes como bagunça são, na verdade, importantes
para desenvolver a sociabilidade da meninada. Por exemplo, a famosa conversa
paralela. "Na Educação Infantil, ela deve de ser encarada como algo que
ajuda no desenvolvimento moral dos pequenos e tem a ver com convivência",
explica Mariana. De acordo com ela, a dificuldade em aceitar ou seguir regras e
respeitar o outro, inclusive figuras de autoridade, também se relaciona a esse
processo. Por isso, por mais que as normas estabelecidas pelos docentes sejam
claras, se forem coercitivas e autoritárias, não farão sentido para a
criançada. Regras como não empurrar e não bater no colega podem ser mais bem
entendidas se assimiladas pelas crianças de modo reflexivo. É mais adequado
conversar e questioná-las: pode bater no colega ou não? Por que não pode?
"Dessa maneira, os pequenos entendem as regras e os combinados por meio de
conclusões que eles mesmos elaboram", explica Mariana.
Abraços,
Rovena Teixeira Libardi.